in Cartas abertas, Escrita, Textos

Tentar de novo

Ser bom em alguma coisa. Destruir as expectativas. Ignorar os olhares tortos, sorrisos falsos e o veneno disfarçado de palavras gentis. Acordar de manhã e lembrar que, ao menos uma vez, aquilo que fiz no dia anterior está realmente bom.

Olhar no espelho sem uma ilusão estranha aparecer no reflexo. Segurar por mais tempo aquele sentimento bom produzido pelo que você disse. Caminhar para longe sem precisar sair do lugar. Responder “sim, claro”, sem parecer falso ou entregar que, na verdade, eu sequer estava ouvindo. Acreditar sem me iludir. Está bom mesmo? Tem certeza?

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Loneliness by Irene Warman

Comer mais um Kit Kat. Ignorar as vozes que dizem “você não consegue”, “não está bom o suficiente”, “não adianta tentar”. Receber um abraço apertado. Chutar os problemas fazendo com que levem junto as neuroses para longe. Sorrir ao ver a autoestima ir de encontro ao chão só para depois subir alto, como uma pegadinha de mau gosto.

Pensar nas qualidades com a mesma intensidade que a mente insiste em reviver os defeitos. Tentar. Lembrar das experiências passadas. Rever os conceitos. Esquecer as experiências passadas. Sorrir mais uma vez. E de novo. Revisar. Investir em quem importa. Rever quem importa. Tentar de novo.

Voltar a falar “eu te amo”. Ser importante para alguém. Ouvir um “por você, consegui”. Sentir-me importante. Ignorar. Construir meu próprio ponto de apoio. Limpar o veneno injetado quando ainda era menor. Abandonar as aparências. Descer de cima do muro. Parar de responder com um sorriso amarelo o preconceito das pessoas ao meu redor. Encarar as cicatrizes como uma conquista, não como uma falha. Acreditar. Continuar tentando. Não me afastar.

“Não, está tudo bem.”

Por que não estaria? Pode me ajudar? Eu sinto que não vou conseguir. Posso abrir os olhos agora? Aquilo que você me disse é verdade? Difícil acreditar. Fala de novo?

“Você consegue. Você é bom, eu sei disso.”

“Tem certeza?”

“Tenho.”

Quebro a cara. Expectativas…

“Você disse que eu conseguiria.”

“As pessoas mentem.”

“E eu acredito.”

E erro. Acreditar, tudo bem. Falha exclusivamente minha em não conseguir.