in Cartas abertas, Escrita

O dele é maior que o meu

Pode substituir o “maior” por: “melhor”, “mais bonito”, “mais rentável”, as opções são tantas… O título é sobre uma frase que adolescentes, ao menos uma vez, já tiveram passando pela cabeça. Ela está no masculino, mas a versão feminina é igualmente válida. Esse texto não é sobre isso, pelo menos não isso. Quando se cresce, a insegurança continua, mas a frase muda: o jardim do vizinho é mais verdinho.

Insegurança. Um assunto que será muito frequente no blog. Por quê? Eu sou inseguro. O blog é meu. Logo, isso vai ser transferido para os posts. Entretanto, não como reclamações ao estilo “minha vida é horrível, não quero mais”, mas, sim, como uma forma de focar e melhorar. Se eu sei o que me deixa mal, é mais fácil trabalhar em cima disso.

Voltemos ao tópico. Fiz meu trabalho (um texto novo, por exemplo), terminei e reli. “Está uma merda!“, penso logo de cara. Eu paro e respiro. Primeiro, salvo e fecho o arquivo. Tento esquecer o que fiz. É difícil, eu sei (ainda mais quando se tem prazos a serem cumpridos). Trabalhando sob pressão. Os pensamentos gritando, mesmo inconscientemente: ‘o do outro é melhor”, “olha como o outro escreveu isso, está perfeito!”. Assim vai, a comparação é inevitável. Se isso ocorre – e realmente acontece – me dou um tempo e tento esfriar a cabeça.

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Voltando para o texto. Releio tudo o que foi escrito. Está realmente ruim? Não? Ok, reviso e aparo as arestas. Sim? Faço de novo (xingando, esperneando, deixando de lado por dias, mas faço), reconstruindo as frases que menos fazem sentido. Ficou melhor? “Não, o texto do outro continua melhor do que o meu.” E é ai que eu quero chegar.

Há duas opções. A primeira é que, realmente, o que eu fiz está uma porcaria. Nesse caso, do it again! A segunda, o texto do outro é melhor porque eu não acompanhei o processo de escrita. Epa! Explica direito, Luan. Falando por mim, costumo sempre ver algo como se tivesse saído bom logo de cara. O autor fez e já saiu aquele texto perfeito, narrativa e descrições ótimas. Tudo conseguido na primeira escrita. Ai é que está o problema, tudo ilusão. Isso pode até acontecer, somos tantos no mundo que é ridículo bater na tecla de que TODO MUNDO tem dificuldades em produzir algo bom logo na primeira vez. Mas não é regra. E você (e eu) não deve alimentar esse pensamento, é se autoflagelar.

Na fotografia é mais fácil acompanhar o processo de edição e melhoramento de uma imagem através de tutoriais, por exemplo. Diferente da escrita, que é algo muito mais pessoal, conseguimos ver de onde ele começou, com o trabalho bruto, não lapidado, e vamos até o resultado final (que muitas vezes me dá vontade de xingar e beijar o responsável por causa do bom trabalho). Se você tiver a oportunidade de acompanhar (ser leitor beta, acompanhar capítulos soltos na web…) a criação de um conto ou livro de algum autor publicado, preste atenção. Escrever é trabalhoso! Reescrever dezenas de vezes, alterar palavras, mudar as coisas de lugar para que façam mais sentido. E isso é perfeito. Esse acompanhamento é fantástico.

Quando se sabe como as coisas foram feitas, elas parecem perder a mágica. Descem de um patamar, antes, inalcançável. E isso não é ruim. Eu passo a olhar o que eu faço com outros olhos. A melhora da minha escrita se torna algo palpável e que pode acontecer. Sai daquela classificação “isso é uma merda” para “hum, dá pra dar um jeito”.

O Eric Novello escreveu um post bacana, mais ou menos envolvendo isso, mas focando na ansiedade. “Escrevi e quero publicar logo“. Usando os pensamentos dele, misturando-os com os meus, finalizo assim: A diferença está em como você quer ser lembrado depois: com o texto “isso é uma merda” (se você escolher deixar de lado e soltar pro mundo aquela primeira versão) ou com alguém passando por todo esse processo de insegurança, lendo o seu texto e pensando “cara, o texto dele é melhor do que o meu”.

Enquanto você estava prestando atenção na grama do vizinho, vendo ela crescer mais verde, dava para ter regado e cuidado do seu próprio jardim. Lapidar, fica a dica. Nada de achar que o texto sai lindo e maravilhoso logo de cara. Não seja um Luan da vida. \o/

  • muito bom, muito bom.
    Atualmente estou nessa. Meus textos saem horríveis e eu começo a desesperar achando que não tem jeito, mas tem.

    Deixo aqui meu quote favorito:

    “Se o problema tem solução, não esquente a cabeça, pois ele tem solução. Se o problema não tem solução, também não esquente a cabeça, pois ele não tem solução” Provérbio Chinês

    E no nosso caso, o problema sempre tem solução, nem que seja a re-escrita completa.

  • Gustavo R. Fragazi

    Ótimo texto, cheio de verdades! (Imagino que o tenha revisado algumas vezes, principalmente por causa do assunto hahaha).
    E é assim mesmo que acontece. Escrever é MUITO trabalhoso, sabemos disso. Mas sabemos também que, quando aprendemos e nos aprimoramos no processo de reescrita, o prazer é inenarrável de se comparar o antes com o depois.