in Cartas abertas, Meu inconsciente

Juntando as peças

Quem eu sou? Dúvidas. A construção da personalidade. Isso está parecendo chamada para reportagem barata. Eu era uma criança quieta, tão obediente. Minha quietude se refletia na escola. Estudava e fazia exatamente o que os professores pediam. Cresci e não foi diferente. Escutava tudo o que falavam – pessoas de uma forma geral – e balançava a cabeça, concordando sem refletir. Tenho muita curiosidade para voltar no tempo e descobrir quando essa parte mudou.

Juntando as peças future is yours by Hegel Jorge

Crescendo, notei que muitas coisas – envolvendo aspectos não físicos, como perseverança, paciência, criatividade, etc – chamavam a atenção em algumas pessoas que cruzavam o meu caminho. Tios, professores, amigos. Sempre observando, captava esses pontos ausentes em mim, transformava-os em “peças” mentais (tipo de Lego) e jogava em algum lugar do meu inconsciente. Características que faltam, que queria desenvolver ou aprimorar. Vai pra caixa “quero para mim”.

“Ele é tão paciente”, pensava, “quero ser mais como ele”. Vira pecinha. Mais paciente, mais criativo, mais pró-ativo, mais reflexivo, mais… mais… mais… Vira pecinha. A caixa ia enchendo e eu não percebia. Que cara invejoso eu era.

Notei a “caixa de características” há poucos anos. No começo, ia tentando encaixar as peças feitas com os moldes dos outros. Mexia até que elas começassem a fazer um mínimo de sentido. Até que o que eu sou se aproximasse do que eu queria ser, sem que ocorresse conflito e eu saísse emocionalmente prejudicado (caso não desse certo). E adivinhe, não dava certo. Por que não consigo ser como ele?

Não vou me tornar o cara mais paciente do mundo do dia para a noite. Ou aquele que escreve tão bem que você tem vontade de bater enquanto agradece pelo texto primoroso; ou aquele que te transmite uma sensação boa só de você ficar perto (ou ouvir a voz?)… Não, nada disso vai acontecer do dia para a noite. Moldar padrões inconscientes é um problema, demora. Percebê-los se modificando é tão bom!

Já que não deu certo pegar as “peças de Lego” dos outros e juntar com as minhas, tenho que mexer nas minhas próprias pecinhas. Tudo isso para que, ao menos, eu me desenvolva chegando próximo às pessoas que admiro. Exatamente, junto com a “caixa” notei que os donos dessas características eram pessoas por quem eu nutria uma admiração, por isso desejava tanto ser como elas.

Isso tudo não significa que eu não me aceite. Significa que quero melhorar absorvendo padrões que gosto de pessoas que gosto, misturando-os com as minhas características únicas. Sendo clichê: me tornar um serzinho melhor. E hoje sei que, graças a isso, os padrões daquele garotinho cegamente obediente não existem mais.