in Cartas abertas, Viagens

São Paulo

Cheguei no estado no dia 2 de agosto. O planejamento foi feito para casar: um estágio, a Bienal e um congresso. Deu certo. No dia 21, parti rumo à capital. De avião até Campinas e ônibus até o aeroporto de Congonhas, cheguei na cidade que reuniu um dos mais empolgantes eventos de livros que já fui. Minha primeira Bienal do Livro. Expectativas controladas, mas a ansiedade deu uma escapada pra me atormentar.

ibirapuera

Claro que a primeira coisa que chamou a atenção foi o trânsito caótico e o estresse dos motoristas. Uma zona. De táxi, passei por uma cena de filme. Quase fechado por um outro automóvel, o taxista mostrou que não estava de bom humor e até ameaçou tirar uma arma de baixo do banco. Imagine a minha cara. Se foi blefe, cai direitinho. Porém, logo depois já fizemos amizade. Trocamos informação e descobri que o cara é fã de Game of Thrones, não gosta de ler e ficou impressionado por eu ter viajado de longe só por causa de uma “feira”.

Fiquei hospedado na casa do Eric Novello, que me levou para conhecer alguns pontos de São Paulo. Como a livraria Cultura, a Geek.etc.br e a FNAC. “WTF, por que estou tão longe daqui mesmo?“. Foi tudo surreal! E nem tirei fotos. Se você assistiu ao filme “A Vida Secreta de Walter Mitty” (se ainda não, não darei spoilers significantes – e vá assistir), sabe que tem um personagem fotógrafo (bateu uma identificação). Ele vai até lugares remotos atrás de uma boa imagem. Entretanto, no momento em que ia conseguir a foto esperada pela vida toda, ele para e só observa. Isso porque há momentos da vida que precisam ser vistos de forma direta, sem ser através de uma câmera. Foi o que fiz.

Conhecemos parques também, refúgios do barulho e do fluxo de gente. Foi ai que senti uma sensação de utopia. Vi casais, heteros e homossexuais, demonstrando afeto sem culpa ou receios – e no mesmo lugar. Sei que é fácil construir uma utopia ignorando pontos ruins, como o trânsito a poluição e a violência, mas foi um mundo tão diferente do meu que esse pensamento se tornou inevitável. Visão de garoto do interior chegando em uma das maiores cidades do país.

Em um dos refúgios verdes, o Parque Ibirapuera, tirei a única foto da viagem – sem contar as da Bienal. Ver que há, por sorte, lugares que destoam da paisagem cinza do restante da cidade ou daquele famoso rio fétido, foi lindo. Às vezes podemos escolher por qual perspectiva encarar o mundo, mesmo que algumas delas precisem de mais força de vontade. E é a imagem do Ibirapuera que ilustra o post. Foi um único disparo, embaixo de (e contra o) sol forte. Não consegui ver direito como ela estava e nem me preocupei em garantir mais uma. Engraçado é que ela ficou boa e ainda carrega todos os meus sentimentos sobre a viagem.

Antes da Bienal, que foi algo a parte e que prefiro não abordar nesse post, vi pessoalmente booktubers que gosto. Saímos pra comer e zoar. Imaginar filmes de terror em um parque de diversões desligado. “Imagina se aquele boneco vira a cabeça pra trás agora!” Saímos correndo.

Tive a oportunidade de conhecer um pouco do cotidiano de algumas pessoas, enxergar os bastidores de quem gosto e ainda me apaixonar por uma vida diferente da minha. Foi um espaço de tempo curto que adiantou horas no processo de autoconhecimento. Voltei pra casa imaginando o que um mochilão faria comigo.

Cada momento está guardado. As conversas, os sorrisos, abraços e as caminhadas por ruas inclinadas. As filas que tem curvinha, e que nunca terminam (porque as curvinhas em São Paulo rendem quarteirões). O meu primeiro Starbucks. A torta de limão. A súbita gripe. A satisfação de andar no metro e me virar sozinho por ele. Percorrer o estado de ponta a ponta para ir atrás do que eu quero. Um obrigado aos meus pais, que surtaram, mas acabaram permitindo.

São Paulo, foi ótimo te conhecer. Mesmo sendo através dos olhos de um turista que não enfrentou os horários de pico do metro ou a contínua poluição, você fez meu coração bater em um ritmo diferente. Até breve.