in Cartas abertas, Escrita

Perda

Repentino, como sempre. Às vezes acompanhada de uma dose de esperança. Essa, uma ilusão confortável do que poderia ter acontecido. Um pensamento terrível do que pode ter acontecido. Esperança é a face sacana de quem brinca com a mente.

Como não lembrar do primeiro dia? Cheia de pulgas, amedrontada e com fome. Orelhas maiores do que a cabeça e olhos azuis. Corria atrás das minhas meias, ameaçando meus pés como se fossem perigosos. Talvez fossem, eram quase do tamanho dela.

perda

No colo, assumia uma posição rígida, denunciando o terror de ser tirada do chão. Medo de ser jogada para longe, como tinha acontecido antes de chegar até mim. Aos poucos foi se derretendo, mais eu do que ela, e nos meus braços foi ficando cada vez mais. Encostava a cabeça no meu peito e ronronava ao receber carinho no queixo.

Era a única que permanecia sobre as duas patas traseiras para pedir carinho. Miado rouco, chamava a atenção e me encarava até receber o que tinha ido buscar. Cafuné. Se fosse fraco, pulava contra minha mão, não importando a altura. Cafuné gostoso é cafuné feito com vontade. Ela me fazia ter vontade. Birrenta, também não aceitava me dividir com os outros gatos da casa.

A expressão que assumia todas as vezes ao receber carinho era a mais engraçada. Olhos meio abertos, assumiam um ar de malvada. Talvez um aviso para nunca parar. O que é bom tem que durar mais tempo. Sempre perto, dormia sob a cama enquanto eu permanecia no computador, um metro à frente. Se eu saísse para buscar um copo d’água, era logo acompanhado. E tão rápido ela vinha que só se espreguiçava quando eu parava de andar.

Foi um dia sendo acompanhado pela sensação de esperança. Procurava por ela mesmo sabendo que havia algo errado. Conhecia minha gata e a ausência dela era estranha. Pena maior foi que eu não a via há uma semana. Se eu estivesse em casa, ela estaria viva a essa hora? O que teria acontecido se eu tivesse chegado mais cedo?

Quem dera nutrir a esperança fosse saudável. Veste-se de boazinha e tortura os pensamentos. Se tiver sorte, ela vai embora deixando-o sozinho com o sentimento de perda. Esse, apesar de doloroso, é mais solidário.

A esperança se foi, deixando cicatriz. A perda assumiu o lugar, mas, mesmo assim, às vezes ainda espero ela sair de baixo da cama para pedir um cafuné.