in Cartas abertas, Escrita

Vida

Ler tira a gente do centro do mundo e nos faz perceber que nosso umbigo não é tão importante quanto pensávamos. Faz a gente se conectar com pessoas com gostos parecidos, nos joga em realidades e universos diferentes, mas que carregam muitas características do nosso redor.

Ler nutre a imaginação e, como bônus, reproduz em nós as mesmas sensações que os personagens estão sentindo. Ler é ver a magia se tornando palpável. Ler dá inúmeras vidas aos que procuram por um livro. E com isso, nunca concordei mais com George R. R. Martin.

vida

Balneário Camboriú | Luan Felipe © Flickr

De férias em janeiro, aproveitei para fazer algumas viagens entre as praias de Santa Catarina. Meus olhos se encheram com a beleza de cada uma. Em um dos passeios, apareceu a oportunidade de fazer mergulho. Era superficial, mas queria experimentar. Tudo até ali estava sendo uma aventura. Um momento fora do meu quarto em que eram os meus pés tocando a areia, as minhas terminações nervosas recebendo as ondas. Até aquele momento, não havia percebido o quão importante isso era.

Era em uma ilha linda. Equipado, fui levado até longe da presença humana. Dedos mentalmente cruzados para conseguir ver coisas legais, porque as mãos se agarravam ao bote a motor que pulava contra a água. Coração estaria na boca se não fosse o traje de mergulho bem apertado mantendo-o no lugar. Chegando, pulei na água.

Vi peixes não se importarem com a minha presença, deslizando pelas algas presas nas pedras. Vi cardumes de sardinhas fazendo nado sincronizado. Vi o que não tinha percebido antes. Viver muitas vidas ganhou uma faceta diferente. Ler é importante pra mim, sempre foi. Sempre me trouxe vivências diferentes e possibilidades, mas sempre foram vistas através dos olhos de terceiros. Quantas oportunidades de ver a vida através dos meus próprios olhos deixei passar?

Não tenho perfil aventureiro, longe disso, e ele não vai surgir agora. Morro de medo de altura e, em certo ponto do mergulho, fiquei enjoado pra caramba. Mas aquele momento me fez entender que, dentre todas as vidas que vivo como leitor, não posso esquecer da minha, que só se move e ganha significado quando a enxergo através dos meus próprios olhos. Quando é o meu corpo que caminha contra o vento, a minha pele que entra em contato com a areia. Meus ouvidos que recebem o som das ondas. Quando sou eu que tenho que lidar com as situações cotidianas, mesmo que matar um dragão seja só no sentido figurado.