in Cartas abertas, Fotografia

Autorretrato

Autorretrato, por definição, é tirar uma foto ou pintar a si mesmo. É olhar para si e expressar o que vê. Há várias formas de fotografia e essa é apenas uma delas, um estilo por qual sou apaixonado. Se você olhar de fora, sem muita atenção, pode até parecer que tenho um nível de narcisismo acima da média. Talvez até eu pensaria dessa forma, mas não é o caso (não muito, pelo menos).

Por que aponto a câmera para mim e aperto o botão? Por que preciso aparecer? Aprendi a considerar essa arte uma parte importante de mim, algo recente. Com a fotografia tenho a possibilidade de ser quem eu quiser. Se enjoar, bastar tirar outra foto. Em um instante, estou nesse mundo experimentando a chuva sobre minha pele. Um clique depois, enfrento minhas sombras e medos. Luto com o que me põe para baixo, com o que tenho que enfrentar quando estou em silêncio.

Quem tira muitas fotos de si mesmo pode se amar muito. Pode ter problemas de autoestima. Pode ser um caso de estudo interessante para um psicólogo. Eu gosto de mim, tive que aprender a gostar. Aprender a aceitar e lidar com as situações e as formas de absorver o que se passa ao meu redor. Como aceitar as discussões, as conversas com os amigos e os sentimentos que, com frequência, não sei como interpretar. E, às vezes, jogo tudo isso na câmera.

Pego essa massa disforme de sentimentos. As inseguranças e receios. Os sorrisos e abraços. Isso tudo e tento transformar em algo que seja bom. Que me faça sorrir quando vejo terminado, ou que me proporcione leveza ao ver publicado. Que carregue significado e que se traduza por si só.

As dificuldades do processo podem se revelar na hora do enquadramento. Tira a foto e vai ver como ficou. Várias vezes, até ter o que tinha imaginado. É trabalhoso, mas sou só eu e a câmera. Me sinto mais tranquilo em trabalhar sozinho, porque se tiver outra pessoa, com certeza vou começar a achar que estou abusando (seja ela a fotógrafa ou modelo) ou não vou me soltar o suficiente para passar o que quero.

É por isso que faço autorretratos. Assim como a escrita, a fotografia é uma terapia. Um jeito diferente de contar uma história, de expulsar o que incomoda. Afinal de contas, só podemos lutar contra o que é real. E, bem, essa é minha maneira de tornar o que atormenta real.