in Cartas abertas

Brasilidade

Há alguns meses, logo após escrever o post Eu também, inspirado por um filme brasileiro, percebi uma coisa: meu pensamento sobre o Brasil estava mudando. Quando mais novo, importar a cultura de outros países era bacana, cool, diferente (ainda é). Realidades que, ao meu ver, não se comparavam de forma alguma com a daqui. Os filmes eram melhores. As músicas, os livros e as pessoas eram melhores. Queria logo juntar grana e ir embora.

Na literatura, sendo obrigado a ler os clássicos, ficava com raiva e isso me afastava da escrita nacional. Lembro que, mais tarde, na época em que comecei a gostar de Augusto Cury, fui pego de surpresa ao descobrir que ele era brasileiro e que, pasmem, escrevia algo que eu gostava. Como pode o Brasil ter algo de que eu goste?

brasilidade

O mesmo se estendia para a música. Gostava de Ana Carolina, mas não espalhava muito, porque era brasileira. Sandy e Junior? Cantava sozinho, fazendo as duas vozes e imitando a Maria Chiquinha. Vamos pular! Quando perguntavam, dizia que curtia só pop internacional e as vezes dava nomes. Fui envelhecendo e agora estou gamadão na Mallu Magalhães e sua Mais Ninguém, que escuto nesse momento. Fui apresentado ao Thiago Pethit, uma outra paixão. Aceitar a veia do funk foi outro problema. Anitta e Ludmilla? Em processo. Hoje e Show das Poderosas são as próximas da playlist.

Os filmes estão melhorando bastante. O conteúdo nacional está crescendo, porque o público está crescendo. Ignorando o problema do financiamento (olhe um filme nacional e veja a quantidade de patrocinador que ele precisa pra sair), a distribuição é outra coisa complicada. Um obrigado ao YouTube. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho nasceu de lá, com o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho. E esse caso é fantástico por dois motivos: saiu da internet e fala sobre homoafetividade. Outro exemplo recente é o Loucas Pra Casar, que roteiro divertido e surpreendente!

Não quero dissertar sobre a dificuldade que tinha em aceitar a existência de conteúdo bacana produzido no Brasil. Sobre o meu preconceito nutrido por anos. Gostar de algo daqui não vai anular a possibilidade de também gostar de algo que venha de fora. E nem que vou ser uma pessoa pior por ler, assistir ou ouvir (e gostar de) produções nacionais. O problema de tudo isso estava em: quando pequeno, eu estava sendo estimulado de forma errada; cresci com isso em mente e demorei um tempo para entender.

Voltando para a literatura, fui dar mais atenção pra ela quando comecei o Show do Luan e pude conhecer escritores brasileiros, por quem sou apaixonado hoje. Bárbara Morais, Eric Novello, Felipe Castilho, Gregório Duvivier… Machado de Assis. Aprendi até a amar os clássicos. Há conteúdo de qualidade, mas é trabalho de garimpeiro encontrá-lo. Mais um viva ao YouTube, que está ai para facilitar as coisas com os canais literários. E um viva  para nós, leitores. Nossa procura por livros nacionais cresce a cada dia e isso desperta atenção das editoras, que abrem mais portas aos escritores. Adoro esse ciclo.

Passei a ver o brasileiro e o que ele produz com olhares mais amenos. Tem vezes que o jeito como resolvemos as coisas é muito bem-vindo (e criativo). Nossos sorrisos e abraços. A forma como demonstramos afeto e cultivamos amizade. Como esse é um post só de amor, não vou entrar nos problemas políticos que enfrentamos. Então, quanto mais conheço outras culturas e estrangeiros, mais amo o Brasil e essa mistura que ele é (mesmo sabendo do longo caminho tortuoso que precisamos seguir).