Linhas e lascas #8

Oi, meu nome é Luan.

Esta será a conversa mais franca e louca que tivemos até agora. Tentei fazer de um jeito que tudo se encaixe no final. Você que vai me dizer se faz sentido ou se estou tomando muito chá com o Chapeleiro.

Então, você já parou para pensar quanto de alguém existe dentro de você?

Eu vejo a minha vida como uma linha, ponto A ao B, como nos exercícios de matemática. A minha linha é essa. E, como numa estrutura linear, mas ramificada, há várias outras linhas cruzando a minha conforte o tempo avança e fico distante do ponto A. São as linhas das pessoas que venho a conhecer.

Às vezes, as linhas se cruzam de um jeito sutil. Porém, em outras, acabam dando nós igual acontece com o fone de ouvido dentro do bolso. Complicado.

Tem vezes, também, que ela se rompe. Ai me resta tentar amarrar as pontas soltas e seguir meu caminho. Cada dificuldade, instabilidade e problemas se tornam uma nova amarra, mas a vida continua. A linha nunca será a mesma depois desses nós e amarras. Ela nunca é a mesma depois dos nossos relacionamentos (aqui entra qualquer relação – amizade, família, namoro, casamento).

E esse pensamento da “linha da vida” não é criação minha. As Moiras, da mitologia grega, já vêm brincando com os nossos altos e baixos enquanto tecem o destino de cada um. Eu só gourmetizei.

Segura as linhas no pensamento ai, porque é assim que eu vejo a vida de uma forma universal. Agora, através de uma visão mais individual e intimista – mas que prometo complementar a ideia das linhas – eu me vejo como um vaso.

Vaso, prato, bacia, qualquer objeto que possa lascar e quebrar ao receber impacto ou pressão. E do jeito que o tempo passa, ganho lascas e sou quebrado na mesma intensidade que ganho nós e amarras. Cada lasca em mim é uma história. Sou quebrado tão intensamente quanto me quebro e cada fragmento depois é reorganizado para quem eu sou ganhar uma forma diferente. É história. Significa que vivi e que isso me afetou e moldou. E estou feliz por não pensar assim sozinho.

As pessoas que cruzam a minha vida também estão cheias de cicatrizes. Lascadas pelo próprio passado a procura de alguém que entenda suas peças quebradas. Mesmo que seja quem você é, mesmo que seja a sua história, seus desafios, conquistas, dramas e dores, mesmo que seja seu, é difícil se mostrar para outra. É complicado, porque é preciso se desarmar todo e expor as marcar das lutas. E, quanto mais desarmado, maior é o medo de ser rejeitado nesse momento de intimidade. Porém, mais sincera é a troca.

Encontrar relacionamentos com uma intensidade de compreensão a ponto de essa troca ser construtiva e leve é outro ponto importante. Às vezes a gente dá a sorte e a Láquesis, uma das Moiras, é gentil.

Entre nós, amarras, lascas e fragmentos, perdemos e encontramos coisas no caminho. A desconstrução acontece e, através de conversas, abraços intensos e admiração por quem gostamos, a reconstrução nos muda de algum jeito. Assim, quem cruza a nossa vida passa a fazer parte da gente, mesmo de forma negativa. O jeito de pensar, atitudes, comportamentos. Nós aprendemos por mimetismo, copiamos e somos copiados. É normal e muitas vezes involuntário.

E nós também ajudamos a destruir ou reconstruir a vida de alguém. Nunca é unilateral. E, para mim, a vida é assim até as peças pararem de se encaixar. Mesmo que doa, mesmo que machuque, isso continua.

Com isso em mente, inverto a pergunta: quanto de você existe dentro de alguém?

Beijos,
Luan Felipe.

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